Entre a cruz e os escombros: o luto seletivo do nosso tempo
Hoje é sexta-feira da Paixão. No calendário do mundo cristianizado, este é o dia mais propício à reflexão sobre a morte. É o dia em que Cristo, uma das pessoas da Trindade, se entrega voluntariamente aos sofrimentos da cruz, assumindo a dor para oferecer redenção àqueles que creem em seu sacrifício. Sua trajetória da manjedoura à cruz já anunciava, desde o início, a sombra da morte: ainda recém-nascido, recebe dos magos do Oriente presentes que carregam o presságio fúnebre de sua missão.
A sexta-feira da Paixão nos convoca a falar do sacrifício, das mortes, dos mortos e dos engenhos humanos de extermínio. Este texto não pretende ser melodramático, tampouco ingênuo. É, antes, uma tentativa de romper o silêncio conveniente de quem escolhe não ver. Porque, enquanto se encena a dor sagrada, há uma dor concreta que se repete todos os dias: crianças massacradas, esquartejadas em vida, exterminadas; órfãos que vagueiam entre ruínas, recolhendo restos de pão, de memória, de afeto em cidades reduzidas a escombros; mulheres violentadas, desfiguradas em seus caminhos e em suas existências, tentando sobreviver sob o peso cotidiano do horror, imposto por potestades que já não se ocultam.
Falar da morte é falar das mortes injustas das mortes de inocentes, das mortes planejadas, das mortes legitimadas por julgamentos corrompidos, pelo poder, pela vaidade, pela vingança, pela inveja, pelos massacres e pelos genocídios que se banalizam.
Ainda assim, o lamento segue seletivo. Nem todos os mortos merecem lágrimas. Se não estiverem enquadrados nos estreitos limites dos interesses religiosos, culturais, econômicos, étnicos ou sociais, tornam-se invisíveis indignos até mesmo de um breve gesto de humanidade. Há olhos que já não choram; há consciências que já não se comovem.
Os corpos dignos de luto passam por um crivo rigoroso. Há uma curadoria ideológica da dor. Até mesmo os corpos enfermos, feridos ou massacrados são abandonados ao esquecimento nem por eles se erguem orações. Há preconceito até na compaixão. Corpos de crianças famintas. Corpos de mulheres violentadas. Corpos despedaçados por armas de tecnologia avançada e custos incalculáveis. Corpos e vidas deliberadamente desumanizados por narrativas que insistem em nomeá-los inimigos mesmo quando sua única luta é por água, por alimento, por sobrevivência.
A desumanização do outro tornou-se uma doutrina difusa, silenciosa, mas profundamente eficaz. Ela se infiltra nas mentes e naturaliza o impensável, legitimando a vontade por vezes assumida, por vezes disfarçada de eliminar o semelhante.
Hoje, muitos choram e encenam o sacrifício de um judeu que enfrentou o sinédrio. No entanto, a morte de Cristo deveria nos conduzir a algo mais profundo do que a repetição ritual da dor: deveria nos ensinar a reconhecer, na cruz, todas as outras cruzes erguidas ao longo da história. Deveria nos ensinar a ver, no sofrimento daquele corpo, todos os corpos injustamente feridos, torturados e eliminados especialmente por aqueles que, investidos de poder, deveriam proteger, mas transformam valas em palcos e cadáveres em degraus para seus próprios interesses.
Hoje é dia de chorar com as mães as Marias de todos os tempos pelos incontáveis “Jesuses” arrancados da vida por juízos iníquos. Juízos que se revestem de legalidade, autoridade e sofisticação, mas que, em sua essência, operam a destruição do futuro e o esvaziamento da esperança.
A cruz, no entanto, não encerra a história. Ela aponta para a ressurreição. Mas essa esperança, anunciada para o terceiro dia, parece não alcançar aqueles que a proclamam. Muitos a enterram junto com suas próprias consciências. Já mortos em vida, ensinam por palavras ou por omissão que matar pode ser solução. E, assim, perpetuam um mundo onde a morte deixa de ser escândalo e passa a ser método.”
© 2026 – Sandro Mariano Viana
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